Cultura




Desenhando inquietações


Em 1994, saía pela primeira vez nas páginas de um jornal de Rio Preto a tira “Violência Gratuita”, que posteriormente viria a se chamar “Grump”, em referência ao personagem principal. De autoria do cartunista, ilustrador e quadrinista Walmir Orlandeli, foram mais de duas décadas de histórias diárias até seu encerramento em 2019.

No mundo das tiras, Orlandeli transitou entre os mais diversos estilos, com charges, ilustrações e experimentações de linguagens, que o levaram à criação da tira “(SIC)”, vencedora do Salão Internacional de Humor de Piracicaba e que rendeu três livros.

Mas as tiras foram só o começo. Logo, Orlandeli sentiu a necessidade de começar a produzir histórias mais longas, evoluindo sua narrativa e, no processo, criando personagens memoráveis e sendo reconhecido em alguns dos principais prêmios de seu segmento.

“Saindo do universo da síntese narrativa, comecei a produzir histórias mais longas, no começo histórias de até dez páginas para a publicação Front, depois álbuns de mais fôlego como ‘Eu Matei o Libório’, ‘Daruma’, ‘O mundo de Yang’, ‘O Sinal’. E isso acabou rendendo o convite para fazer a ‘Graphic MSP Chico Bento – Arvorada’. É uma trajetória de produção constante. Mudei muito nesse processo e minha obra mudou junto comigo”, conta Orlandeli.

São fases distintas, com interesses distintos. A fase do humor descompromissado do Grump, segundo ele, não é exatamente algo menor que a fase mais reflexiva do Yang. E o traço de Orlandeli acabou acompanhando essa “mudança de rota”, como ele descreve.

“Não dá para pegar o traço do Grump e fazer uma história como ‘O Sinal’. Quando comecei a querer contar histórias mais complexas, a busca por uma estética que funcionasse bem como ferramenta narrativa foi acontecendo naturalmente. O desenho sempre está a serviço da narrativa. Claro que nesse caminho a gente vai experimentando muita coisa e o traço amadurece.”

Reconhecimento
O trabalho mais recente de Orlandeli, “Os olhos de Barthô”, foi finalista em dois importantes prêmios brasileiros. No Prêmio Jabuti, o principal de literatura do país, a obra concorreu na categoria “Melhor História em Quadrinhos”.

Já no HQMix, considerado o Oscar nacional dos quadrinhos, a publicação disputou como “Melhor Publicação Independente Edição Única”, enquanto Orlandeli foi indicado nas categorias de “Melhor Roteirista Nacional” e “Melhor Desenhista Nacional” e concorreu a “Melhor Publicação Juvenil” por “O Mundo de Yang – Rumo ao Sul”.

Mas Orlandeli não é estreante esses prêmios. Ele já venceu duas vezes o HQMix e foi finalista no Jabuti com “Arvorada”, sua releitura do personagem Chico Bento, de Maurício de Sousa.

“’Os olhos de Barthô’ é uma HQ que busca refletir sobre os diferentes olhares presentes no mundo. Barthô, desde muito cedo, enxerga o mundo de um jeito diferente, tudo é bonito aos olhos de Barthô. A inspiração vem um pouco desse momento onde as ‘verdades absolutas’ estão em evidência, onde se insiste em não reconhecer a pluralidade de perspectivas e olhares para um mesmo mundo. Fico feliz em ver a obra sendo comentada e discutida, e vê-la como finalista do Jabuti reforça a relevância do tema e da forma como foi abordado”, afirma.

Mas, para Orlandeli, mais importante que sair vitorioso, é o “empurrão” que essas premiações dão para que as obras alcancem mais leitores. “O melhor de ser finalista ou ser premiado é que essa exposição acaba despertando interesse em mais pessoas de conhecer a obra, o que, para mim, é o principal. Ter mais leitores comentando e compartilhando a obra sempre será o maior reconhecimento e o único que realmente conta.”

Adaptação
Apesar das dificuldades impostas pela pandemia causada pelo novo coronavírus, com o cancelamento de eventos e atividades, 2020 foi um ano movimentado para Orlandeli. Além dos prêmios em que está indicado, o autor foi se adaptando à nova realidade. Uma das mudanças foi a atenção maior à sua loja virtual.

“Interessante é que soluções que vieram para ‘quebrar o galho’ se mostraram promissoras e abriram possibilidades para novas formas de interagir e movimentar o mercado”, diz.

E já tem novidade para 2021. Seu projeto chamado “A Coisa” foi um dos selecionados no Programa de Ação Cultural (ProAC) na categoria quadrinhos. A graphic novel contará a história da “Coisa” do título, mas o que seria essa Coisa?

“A Coisa é muito mais uma sensação que um personagem, algo que te acompanha, independente da sua vontade. Uma presença constante, uma inquietação. Como na maioria das minhas obras, acabo escrevendo uma história para, na verdade, mexer um pouco com essas sensações que também estão dentro de mim e, quem sabe, conviver melhor com elas.”




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